Algumas coisas
na vida da gente, por alguma razão, acabam marcando mais do que outras. Tenho
uma lembrança muito nítida de uma tarde que acordei, depois de cochilar no sofá
da sala, e não achei minha mãe em casa. Procurei em todos os cômodos e nada. Os minutos
foram passando e aquela situação foi me dando um certo pânico. Comecei a
telefonar para algumas pessoas, perguntando se sabiam onde ela estava. Depois
de 15 minutos, minha mãe entrou pela porta da sala e deparou-se comigo, em
prantos, folheando a agenda telefônica dela. Nessa época, em que eu deveria ter
uns seis anos, a simples ausência da minha mãe era motivo para que eu entrasse
em desespero.
Depois dessa
fase de completa dependência, lembro de outro dia que fui para a escola, que
era a poucas quadras de casa, na garupa da bicicleta dela. Eu, pré-adolescente,
pedi para que me deixasse na esquina. Quando eu percebi que ela ia seguir adiante e parar em frente à escola, eu pulei da bicicleta, me jogando na
calçada. Sujei-me toda na grama molhada e cheia de barro e claro, ralei meus
cotovelos e joelhos. A criatura prefere chegar à escola suja e sangrando do que
aparecer na frente dos colegas na garupa da bicicleta da mãe.
Eu sentia
vergonha. Beijos e abraços na frente dos amigos, nem pensar! Esse sentimento
intensificou-se ainda mais, a ponto de eu só apresentá-la como minha mãe quando
levava alguém para estudar comigo na mesa da cozinha, aí não tinha outro jeito.
Namorado, então, ela só conheceu aquele que veio a ser o meu marido e mesmo
assim, alguns meses antes de eu me casar. Vergonha dela. Eu tinha muita
vergonha.
Quando
engravidei do primeiro filho, notei que já não pensava mais da mesma forma. A
mulher amadurece assim que recebe o exame de gravidez positivo. Ela deixa de
comprar aquela bolsa de grife para comprar roupinhas para o bebê. Ela já vira
mãe desde o primeiro momento da notícia.
Durante a
gravidez, passei a olhar minha mãe com outros olhos. Comecei a imaginar que ela
também sentiu os enjôos e as câimbras que eu estava sentindo, quando engravidou
e que também me carregou no ventre durante nove meses e passou pelas dores do
parto e depois dele, sem nunca ter reclamado nada pra mim. Passei a dar mais
valor a ela.
Quando o bebê
nasceu, durante a licença à maternidade (só nessa ocasião descobri por que se
chama licença: é por que a mulher
pede licença para afastar-se temporariamente do mundo para assistir ao bebê 24
por dia, sem descanso aos finais de semana e feriados) passei a idolatrar minha
mãe, sentimento diferente de quando eu era pequena e dependente dela, mas tão
forte quanto aquele.
Hoje, aproveitando
a ocasião do dia das mães, eu queria dizer: _ mãe, obrigado por me amamentar e
deixar sua vida de lado até que eu começasse a andar! Obrigado por me dar sua
mão e me segurar para eu não cair até eu firmar os passinhos! Obrigado por me
ensinar as primeiras palavras. Obrigado por ter a paciência de me trocar às
vezes em que acordei de madrugada assustada e fiz xixi na cama. Obrigado por
tentar me ensinar a fazer aquela lição de casa de matemática que não entrava na
minha cabeça. Obrigada por me levar na marra para a igreja. Obrigada pelos
conselhos que me deu a vida toda e me perdoe por não ter ouvido quase
nenhum.
Hoje eu não tenho mais a minha mãe ao meu
lado. Ela está no único lugar onde anjos como ela pode estar: ao lado de Deus,
lá no céu, mas sei que lá de cima ela está me ouvindo: Você continua fazendo
parte da minha vida, por que está em meus pensamentos e orações todos os dias,
não me esqueço de você um dia sequer. Obrigado, mãe. Te amo muito. Feliz dia das mães!
Fernanda
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