sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Boneco

Há oito anos atrás, faltando 15 minutos para as oito horas da manhã, o sonho de menina, de brincar de boneca, se realizava. Essa boneca, aliás, boneco, recebeu o nome de Murilo. O nome que a mãe já queria colocar no filho antes mesmo de existir um pai. Mas ele tinha mesmo cara de Murilo. Cara de menino mesmo, não de joelho. Era o bebê mais fofo da maternidade, naquela manhã de dezembro. As enfermeiras brigavam para ver quem iria pegá-lo. Não me canso de contar essa parte da história para ele. Nos dias em que permanecemos no hospital, eu acordava cedo e já me preparava para recebe-lo para amamentar. Era uma espera gostosa, ansiosa. E amamentar é uma experiência mágica. Eu podendo alimentar um ser. O meu ser. O meu pequeno ser. Totalmente dependente de mim. Meu boneco. Só que dessa vez não dava mais pra tirar as pilhas e guardar na caixa quando não quisesse mais brincar.

Fernanda Berton

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Queria ter você aqui

Queria ter você aqui
Pra dar-me sermão
Pra não me deixar falar palavrão
Pra dizer-me não
mesmo que eu quisesse ouvir um sim

Queria ter você aqui
Pra dar-lhe muito carinho
Pra eu deitar no seu colinho
Pra seguir o seu caminho
por onde for, até o fim

Queria ter você aqui
Pra escutar sua risada
Pra chamar-me de malcriada
Pra esperar sua chegada
e trazer mais alegria pra mim

Queria ter você aqui
Pra estourar pipoca
Pra brindarmos com Coca
Pra ouvirmos fofoca
em uma tarde assim

Queria ter você aqui
Pra dar-me abrigo
Pra brigar comigo
Pra escolher os meus amigos
mesmo que eu achasse ruim

Queria ter você aqui
Pra ir à minha formatura
Pra ensinar-me a ter jogo de cintura
Pra eu ter sempre fartura
até quando não tivesse tanto din-din

Queria ter você aqui
Pra não me deixar tomar vento
Pra manter-me atento
Pra ir ao meu casamento
e torcer pra eu não ter uma decepção

Queria ter você aqui
Pra segurar seus netos
Pra dar-me afeto
Pra deixar-me sempre coberto
mesmo nas noites de verão

Queria ter você aqui
Pra ensinar-me a ter fé
Pra fazer em mim cafuné
Pra pegar no meu pé
sempre que eu fosse sem educação

Queria ter você aqui
Pra quando eu estivesse mal
Pra tomar banho de chuva no quintal
Pra passar o Natal
e esperar a tarde toda pra assar o leitão

Queria ter você aqui, mãe.

Fernanda Berton

Anjo da Guarda

Parece que foi ontem. Lembro-me de cada detalhe. Estava sentada em seu colo. Eu a abracei e disse que só de imaginar que um dia não estaríamos mais juntas, eu já ficava triste. Ela me consolou, dizendo que não era preciso pensar naquilo, tinhamos muito o que curtir ainda.
Desde pequena eu tinha aquela preocupação: saberia eu viver sem aquela criatura? Minha melhor amiga. Meu guia. Anjo da guarda.
Meu primeiro grito de desespero ao saber que ela havia partido, foi o de quem gostaria de ir junto com ela, por não saber se iria conseguir ficar sem. Mas quando dei por mim, lembrei que naquele momento EU era o porto seguro de uma outra pessoa, meu filho, que com quatro meses de vida, dependia totalmente da minha existência. Eu estava sendo pra ele o que ela sempre foi pra mim: tudo.
E foi assim que eu tive forças para continuar sem a sua presença física.
"E me lembro de você em dias assim: um dia de chuva, um dia de sol... Até a próxima vez" (Renato Russo - Love in the afternoon).

Fernanda Berton